São Paulo - A comunidade árabe no Brasil, estimada em 12 milhões de pessoas, “está em sua grande maioria estabelecida em São Paulo”, diz o representante da etnia no Conselho Estadual de Comunidades de Raízes e Culturas Estrangeiras (Conscre), Rezkalla Tuma. O primeiro registro oficial da imigração árabe no Brasil data de 1835, com a chegada dos irmãos Zacarias no Rio de Janeiro, vindos de Beirute.
Mas foi por volta de 1865 a 1870, que começaram a chegar as primeiras levas de imigrantes. Eles saíam da Síria que, naquele tempo era ocupada pelo império Turco Otomano, pelo porto de Beirute, com o passaporte turco. Por isso, esses primeiros imigrantes eram todos tidos como turcos, conta Tuma. “Só que o turco não tem nada a ver com o árabe, é outra raça, outra etnia, outra nacionalidade”, explica o representante da Comunidade Árabe-Síria no Conscre.
O imperador D. Pedro II, que falava árabe, visitou Beirute e Damasco em 1876. Em Damasco, o imperador escreveu um poema, que enviou ao Visconde de Taunay, onde ressaltava :“Damasco dos milênios, berço da civilização, e quem a construiu ajudará a construir o Brasil”, relembra Tuma.
A partir da visita do imperador, a imigração árabe se intensificou e muitos imigrantes chegaram a São Paulo pelo Porto de Santos. “Há muita dificuldade em precisar a chegada dos primeiros imigrantes árabes à cidade de São Paulo, porque eles vinham com passaporte otomano e, nessa época, não havia cautela nem cuidado de saber exatamente de onde vinham”, diz Tuma. Segundo ele, “a partir de 1890 em diante, intensifica-se o fluxo de imigrantes árabes para o Brasil e, especialmente, para São Paulo”.
A família de Rezkalla Tuma desembarcou no Brasil no porto do Rio Grande do Sul e foi parar em Pelotas, “onde ficou até 1920 quando, após um recital, Olavo Bilac disse a meu pai: você é um grande artesão de calçados e deveria ir para São Paulo, onde terá muito mais oportunidades.Meu pai e seu irmão, Jorge, vieram pela primeira vez para o interior de São Paulo e, em São Carlos, se estabeleceram, mudando-se depois para a cidade de São Paulo”, conta Tuma.
Rezkalla nasceu quando a família ainda morava em São Carlos, mas os irmãos Romeu (senador da República pelo PFL paulista) e Renato nasceram quando a família já morava na rua 25 de março, em um sobrado. Rezkalla contou que a famosa rua – hoje abrigando uma série de outros imigrantes – é um marco para a comunidade Árabe-Síria.
Tuma conta que, no início, a cidade de São Paulo era dividida em cidade baixa e a cidade alta. A cidade alta, localizada nos contrafortes do Mosteiro de São Bento, tinha comércio um pouco mais evoluído. Mas, com o tempo, os aluguéis foram ficando muito caros e os comerciantes árabes começaram a ocupar a área onde passava o ribeirão Tamanduateí, construindo suas lojas de madeira até que a região acabou se tornando um importante centro comercial.
Por volta de 1920, Tuma conta que os comerciantes vendiam praticamente produtos importados, que vinham da Europa – porque no Brasil pouco se fabricava – e em 1930 é que se começam a se produzir produtos brasileiros. Essa evolução da produção nacional trouxe para a 25 de março um progresso muito grande, avalia Tuma.
Era interessante, porque as famílias moravam em sobrados e as lojas comerciais ficavam embaixo desses sobrados. Era ali, na 25 de março, que se via a maior concentração dos imigrantes árabes”, explica Rezkalla.
Nestas últimas décadas, entretanto, a 25 de março, que habitualmente tinha árabes, portugueses, alguns judeus, poucos espanhóis e italianos, começa a ser invadida por novas imigrações de coreanos e chineses. Com a chegada destes novos imigrantes, grande parte da comunidade árabe deixou o local e não continuou com o comércio de suas origens. “Os filhos dos imigrantes estudaram, formaram-se e hoje são brasileiros que ocupam posições brilhantes, seja no comércio, política, indústria, bancos, em todas as áreas”, orgulha-se Tuma.
Atualmente, o número de árabes e descendentes no Brasil é estimado em 12 milhões de pessoas, sendo a maioria reside em São Paulo. Apesar de grande orgulho de suas origens e de procurarem manter suas tradições, Rezkalla destaca que a integração dos árabes no Brasil se deu a tal ponto que “é incrível dizer que 98% dos descendentes sírios e libaneses, principalmente, não falam o árabe”.
Segundo Rezkalla, o que acontece no Brasil, e em São Paulo principalmente, deveria servir de exemplo para o mundo. “O Brasil é o único país do mundo em que os seguidores das diversas religiões vivem cordialmente. Os descendentes de diferentes etnias – sejam africanas, sejam árabes, européias, asiáticas e outras – estão se mesclando, a uma velocidade impressionante”.
Fonte: Agência Brasil
