Imigração: Parte 3

Como já foi dito anteriormente, não se sabe ainda a data do início da vinda do árabe para o Brasil. Ao conversar com um professor do Instituto Rio Branco, imigrante sírio, que veio para o Brasil em 1939, este me contou que também desenvolveu uma pesquisa sobre a imigração árabe no Brasil. Essa pesquisa, segundo ele, contou com o depoimento dos primeiros imigrantes, que para cá vieram.

"...Mas os patrícios fizeram uma pesquisa e conseguiram descobrir nos arquivos do Porto de Santos, o registro de uma família que chegou ao Brasil no dia 7 de abril de 1873. O primeiro registro, mas..., claro, antes tinha outros sírios-libaneses que chegaram ao Brasil. Naquela época não tinha sírios e libaneses. Todos eram sírios. Porque o Estado do Líbano surgiu depois...Então de lá prá cá, inclusive eu fiz várias pesquisas com aqueles velhos que chegaram no final do século XIX e contaram muita coisa prá mim...Sobre por que vieram e como. É uma coisa muito interessante. Eles passaram por... no início, eles não sabiam, não tinha como distinguir entre um país e outro. Tudo prá eles era América. Tudo. Então, dependiam veja, dependiam do navio. Tinha agente de viagem , um em Gênova, outro em Marselha, França. Então, primeiro navio que chega, que saía prá América, eles informavam a todos aqueles concentrados naquelas duas cidades: 'Prá América!'. Então eles chegavam no Canadá, outros nos Estados Unidos, no Caribe, e muitos se perderam..." ( entrevistado)

Sabemos que nesse primeiro período, várias correntes imigratórias chegavam ao Brasil. Os navios que aqui chegavam, traziam árabes, mas também italianos, espanhóis, e outros imigrantes. Mas sua grande diferença era que a imigração árabe se caracterizou por sua espontaneidade, sem nenhuma participação direta do governo o outras forças.

"...Acontece que em uma de suas viagens, ele presenciou um crime e acabou tendo que testemunhá-lo. Em conseqüência, começou a sofrer perseguições e ameaças de morte. Até que em um determinado momento sentiu necessidade de fugir realmente. (...) Comprou uma passagem num navio e dirigiu-se para a Argentina. Navio esse que trazia um grupo de libaneses já residentes no Brasil, que tinham voltado à terra à passeio, estavam retornando e o animaram com o Brasil e não com a Argentina. Talvez, talvez não, com toda certeza, entusiasmado por este grupo e já ao qual ele se integrou, ele desembarcou com eles no Rio, acredito, levado por esses patrícios, se localizou na Zona da Mata, na fronteira de Minas com o estado do Rio, no lado mais próximo de Minas". ( entrevistado)

Convém lembrar que nessa época não seria possível que os governos dos países árabes participassem de algum acordo, uma vez que seus Estados não eram ainda soberanos. Sabe-se também que os primeiros imigrantes dessa leva ficaram conhecidos como mascates.

"Procuravam um comerciante ou fabricante de bugigangas que lhes dava uma caixa com pentes, vidros de perfume, etc. e iam vender nos arredores das cidades. Foram chamados de 'Ahlal Kacha' (povo da caixa), a palavra brasileira entrou, aliás, no vocabulário árabe comum" (Hajjar, 1985: 89).

"...Então, eles chegavam, carregavam aquela caixa que tem o mesmo nome em árabe: caschi, e vendiam primeiro nos bairros afastados. Depois começaram a vender a prazo por um ano até a safra...E também muitas vezes eles não recebiam dinheiro. Recebiam parte da safra. E naquela época tinha café. Então eles eram inteligentes. Recebiam e carregavam a colheita e mandavam prá São Paulo diretamente para o comerciante." (entrevistado)

É sabido também que após desembarcarem no Rio de Janeiro, em princípio, ou no Porto de Santos, anos mais tarde, os primeiros imigrantes convergiam para três centro principais: Ao Norte, encontraram o ciclo da borracha; ao Sul, o ciclo do café; e ao Centro, o ciclo dos minérios.

A procura de enriquecimento e progresso fazia com que o deslocamento do imigrante se processasse sempre em direção de novos centros, atrás de um novo florescimento econômico, de uma nova estrada ou de uma nova mina, enfim, não lhe importavam as dificuldades que encontraria ou a vida à qual teria de se sujeitar.

Essa primeira leva foi importante pelo fato do árabe ter se espalhado por várias partes do Brasil.

Além disso, nessas primeiras levas, o imigrante não considerava definitiva sua vinda para o Brasil. O retorno à seu país ainda permanecia no pensamento da maioria dos árabes que aqui viviam.

Com o início do século, inicia-se também a segunda leva imigratória. Os primeiros imigrantes já se encontravam em uma situação mais estável, sua família adaptava-se bem ao Brasil e seus filhos freqüentavam escolas e faculdades.

"Acho que o Brasil foi um grande achado para todos os árabes. É um país muito calmo, clima excelente, grande oportunidade de trabalho... principalmente no início do século, com a nossa industrialização fervente..." (entrevistado)

Com o sucesso desses árabes, muitos conterrâneos começaram a vir na esperança de melhorarem também seus padrões de vida.

"...Então surgiu um tipo de contaminação: Fulano é melhor que eu...então eu vou prá Brasil ganhar dinheiro." ( entrevistado)

Os que vieram nessa fase, já encontravam os primeiros aqui fixados e já atacadistas. Dessa forma, eles lhe forneciam mercadoria, ensinavam-lhe a língua e os iniciavam nos conhecimento básicos para o exercício das transas comerciais." (Hajjar, 1985: 98)

"Meus bisavós chegaram no Brasil com outro grupo de patrícios, e eles foram todos para Goiás. Havia, já na época, alguns árabes por lá". (entrevistada)

Nessa época também, muitos jovens desertores do exército otomano vieram para o Brasil. Para esses jovens, servir o exército otomano era uma ação indigna e a eles restava a emigração. Não somente jovens desertores, mas muitos outros vieram por motivos políticos, perseguições, etc. (Hajjar, 1985)

Com a vinda desses jovens instruídos e de outros imigrantes com novas idéias, a vida do mascate vai sendo abandonada por muitos por sua aspereza; os recém-chegados tendiam a se fixarem mesmo nos lugares mais distantes com pequeno capital.

Passados 20 anos desde o início da imigração, o mascate passa agora a vendeiro. Posteriormente, torna-se comerciante, onde sua adaptação perpetua-se.

Hajjar ao falar dessa segunda leva, enfoca boa parte de seus comentários no contexto político dos países árabes na época. No entanto, não entraremos muito nesse contexto.

Com relação à terceira leva imigratória, sabe-se que caracterizou-se pela chegada dos camponeses arruinados pela Primeira Guerra Mundial entre 1918 e 1938.

Esses imigrantes, segundo Hajjar, eram largamente analfabetos e várias escolas foram fundadas com objetivo de ajudar os novos imigrantes e seus filhos.

Também muitas igrejas foram abertas nessa época, com o objetivo de manter os grupos unidos e estimulando as atividades culturais.

Por volta de 1929, a crise e o contínuo progresso da indústria nacional desviaram a atenção dos ricos imigrantes para o comércio e a indústria: foram fundadores de novas indústrias, dominando o mercado de certos produtos.

Se antes, o objetivo era adquirir propriedades na aldeia natal, ou mandar dinheiro para os parentes comprarem imóveis, agora essa situação se alterava. Os árabes começavam as se interessar pelas residências e propriedades no Brasil. E nesse período, o comércio ia se estendendo por todas as vias principais.

Os colegas e parentes observavam esse costume e concluíam que realmente a situação do sujeito e da família havia mudado para melhor. A partir daí, criava-se esperança e expectativa em relação à América. Na época, pouco importava o país, pois eles vinham pensando na América, talvez, até mesmo sem ter noção do tamanho do novo mundo.

"O Líbano estava passando por um momento difícil e acho que se empolgaram quando souberam que uns primos do meu avô estavam enriquecendo aqui. Esses outros libaneses, estavam fazendo dinheiro com o comércio, lá em São Paulo". (entrevistada).